família, infância

Chicletes

chicletes opastelzinho

 

Quando eu era menino, bem menino mesmo, a escolinha onde eu estudava entrou em acordo com os pais e mandou proibir os chicletes dentro do ambiente.

Isso foi na pré-escola e realmente não fazia sentido deixar crianças de 5 ou 6 anos consumindo açúcar desenfreadamente, colocando os dentes em risco e ainda atrapalhando as refeições. Sem falar na possibilidade de engolir o chiclete no meio de alguma brincadeira.

Tudo foi muito bem até o dia em que a professora interpelou uma menininha que mascava seu chiclete tranquilamente durante a aula.

– Fulaninha, a gente já conversou e não pode mascar chiclete. Joga fora, por favor?

– Não posso, fessora.

– Pode, sim, Fulaninha, todo mundo combinou, tem que cumprir. Joga fora, vai.

– Não… não posso jogar fora.

– Como não pode, menina? Tem que jogar fora. Vamos, cospe esse chiclete agora.

– Não posso, fessora, ele não é meu, é da Ciclana, ela só me emprestou um pouquinho…

Parece piada, mas eu acredito, porque foi minha mãe que contou.

 

Direto na têmpora: Home – Suicidal Tendencies

cotidiano

Na faixa

faixa pedestre o pastelzinho

 

A pior experiência profissional que já vivi aconteceu há dois anos em Vitória. Lidei com gente desonesta, passei muita raiva, mas ainda me lembro dos bons amigos que fiz e de uma constatação que chocou a toda a minha família: lá os motoristas param para você atravessar na faixa de pedestres.

Pode ser um fato de menor importância para outras cidades brasileiras, mas em Belo Horizonte esse é um dado quase inacreditável. Aqui na capital mineira não se para na faixa. Simples e assustador assim.

Há 10 minutos tive que correr para terminar a travessia da faixa porque um motorista me viu no meio do caminho e simplesmente seguiu em frente como se eu estivesse errado.

Preciso acreditar que somos melhores do que nosso comportamento na faixa de pedestres insinua. Não sei de onde tiramos esse mau hábito e também não faço ideia de como podemos mudá-lo, mas é preciso tentar. Esse respeito à faixa e ao pedestre é um sinal tão básico de civilização e educação quanto não jogar lixo no chão, por exemplo.

Eu venho me esforçando para mudar, embora às vezes ainda escorregue. E você, ainda acha que é o dono da rua e o presidente da faixa?

 

Direto na têmpora:  Testify – Rage Against The Machine

cotidiano

A arrogância

arrogância

A Arrogância é um bichinho de 2 centímetros de altura que acha que tem 2 metros.

Sua cor é um vermelho vivo, capaz de cegar a si mesma.

A Arrogância nasce e se alimenta do próprio umbigo.

No habitat em que vive a Arrogância, vivem muitas manadas de Certezas, mas raramente se vê algum exemplar de Respeito.

É compreensível.

O Respeito, assim como seu parente próximo, a Gentileza, é sempre vítima da Arrogância.

Direto na têmpora: Last day on earth – Rats on Rafts

cotidiano

O cachorro e a orquestra

CACHORRO E A ORQUESTRA

 

Final de tarde em Ouro Preto. A orquestra toca músicas de cinema e um cão branco, repleto de lirismo, encontra seu caminho por entre as pessoas para se deitar no palco.

O cão, que não é pequeno, atrapalha o movimento dos arcos de violino e é retirado do palco.

O dia vai morrendo noite, as pessoas vão vestindo blusas e, nas últimas luzes, ele volta. Sobre quatro patas faz pose, sobe tranquilo e se ajeita de novo. Uma vez mais é retirado sob protestos compreensivos.

O espetáculo termina e alguma poesia ficou no ar. Certamente é feita de música, de réstia de sol, das pedras de Ouro Preto.

Certamente é feita de um certo cão branco, de rua, que teimosamente quer dormir aos pés de um violino.

 

Direto na têmpora: Adiós Nonino – Astor Piazzolla

cotidiano, opinião

Meu amigo da internet

meu amigo da internet

 

Eu acho muito engraçado
O meu amigo da internet
Que nunca se manifesta
Se eu falo de amor, cultura ou basquete

Mas se por algum vacilo
Eu menciono o Bolsomito
Das profundezas da web
Surge o seu estranho grito

Chega e vem atirando
Tomando conta da casa
E a minha timeline
Vira logo a Faixa de Gaza

Então falo de outros temas
Sigo postando tranquilo
E do lado do amiguinho
Só se ouve o som de um grilo

Mas se por algum descuido
Resvalo de novo no assunto
Me arrependo de imediato
Pois ressuscito o defunto

Vivo assim com meu amiguinho
Cada post uma emoção
Isso não é ideologia
O que ele tem por mim é paixão

 

Direto na têmpora: Plainclothes man – Heatmiser

cotidiano, opinião

Corra, mente corra!

corra mente opastelzinho

 

O normal é uma determinação aleatória. Simples assim. Tal coisa é normal porque muita gente (ou a gente que manda) diz que é. Afinal, “normal” e o que segue a norma. E quem é que define a norma?

Por isso, o argumento “isso é normal” me assusta tanto. Há 150 anos a escravidão era normal. Há 100 anos a proibição do voto às mulheres era normal. Há 50 anos proibir duas pessoas do mesmo sexo de se casarem era normal.

Evoluímos, mudamos, crescemos e daqui a 150 anos irão olhar o nosso “normal” com um outro filtro e ficaremos expostos na história por nosso ridículo.

Sendo assim, diante do sinal de normal, pense duas vezes, questione, procure o que está por trás da norma. E se perceber a armadilha, corra. Olhando pra frente sempre, corra.

 

Direto na têmpora: Hu, ha, hu, ha! – Devotos do Ódio

literatura

Orestes

orestes opastelzinho

 

O céu ali era de um azul acinzentado durante todo o dia. Não importava quanto o sol brilhasse, parecia sempre haver um filtro que bloqueava a luz e mudava as cores, deixando tudo num tom pastel, meio fosco, como se fosse a vida impressa em papel pardo. Ali o Orestes nasceu, sem nunca sair do ranchinho do seu avô (mãe morta no parto, pai morto por picada de jararaca).

Se acostumou com o frio da chuva no lombo enquanto carpia e com a brasa do meio-dia esquentando sua marmita pouca. Parecia que sua boca sempre só havia provado as sobras da roça de cará e o gosto-meio-sem-gosto de um naco mal cozido de carne de bode.

E foi em um dia igual a todos os outros que o Orestes juntou vista na Sensata. Foi um olhar longo e tristonho como quem vê o mar e descobre nele a perdição do infinito, não a beleza.

Sensata era a filha de um ex-seminarista, hoje boticário de situação um pouco melhor, que vivia ali perto de Ipaba onde o leite já chega de caminhão e não mais em lombo de burro.

Naquela noite o sono lhe custou horas de Salve-Rainha e deu-lhe a certeza de que Sensata era algo demasiado grande para um lugar como sua mente.

Nos próximos dias, pensou milhões de vezes em tomar o rumo da casa do ex-seminarista e fingir interesse na salvação de sua alma apenas para poupar o corpo do flagelo que era a distância de Sensata. Em suas orações já não rezava, mas pedia, implorava pelo fim daquele tormento fosse como fosse.

O avô percebia seu desassossego, pressentindo uma adolescência tardia naquels 27 anos que só haviam conhecido o amor de duas ou três cabritas desgarradas na estrada (com as do avô seria pecado). Orestes, calado de forma e feita, sumia-se agora de vez dentro de si, evitando as já raras conversas com o velho. Dentro do casebre de lama seca e pau-a-pique o silêncio era quase um terceiro morador.

Quando o avô morreu sem sintoma, gemido ou esboço de dor, Orestes fez como haviam feito com o pai, enterrando a carcaça sob um manto de poeira e pedregulhos a alguns passos do bambuzal. Não houve pranto, nem missa, apenas uma aceitação muda e um pedaço de futuro novo que se insinuava na sela sobre o lombo do burrico.

Não via mais função ali e, apesar de não conhecer caminho que fosse dar em algum lugar, teria o rosto de Sensata a lhe guiar. Selou o animal e partiu para cortar as poucas léguas que os separavam.

Já na curva que antecedia Ipaba ouviu o barulho de foguetes, gritos, risadas e toda uma sorte de sons que não eram os seus.

Suas vistas encontraram a torre da igrejinha; as folhas do alto das árvores; os primeiros contornos da praça; as pessoas em roupa de domingo (para Orestes não havia domingo, era função dele cuidar da terra enquanto o avô se ocupava do mundo); os sorrisos; Sensata toda de branco acompanhada de seu pai, flores na mão e outro homem a lhe segurar o braço.

Confusão em sua mente. Não era Sensata a fuga, o caminho, o prenúncio do Orestes que ele nunca fora?

Apeou ao largo da festa e caminhou em direção a Sensata ainda se inteirando daquele mosaico todo novo de cheiros e cores. Turbilhão.

Com o canivete ganho do pai abriu-lhe a garganta com os gestos mecânicos de quem matou todo um mundo de bodes. O noivo recebeu o golpe único no coração e a si próprio inflingiu um corte profundo na barriga.

Silêncio. Sem pranto, missa ou manto de poeria perto do bambuzal. A última vida que Orestes viveu terminou apenas com a sensação indistinta de ir-se.

E foi.

 

Direto na têmpora: Valvonauta – Verdena

literatura

Pela janela

pela janela opastelzinho

 

O dia inteiro olhando pela janela. Vistas perdidas no horizonte, pinceladas pelos vôos das aves. 8 anos vividos em um apartamento, com saídas para inglês, aula, natação, caratê, reforço de matemática, visitas ao médico, prédios de tias e avós.

A vida cerceada criava uma inocência que a tv roubava a cada segundo. Zerou o game da moda. Zerou o Netflix. Olhava pela janela.

Passaria pelas grades se quisesse ser passarinho? Cabia?

Na varanda havia a tela. Na mesa a tesoura que recortava hiatos e ditongos em revistas.

Alçou o desajeitado vôo interrompido pela calçada.

Na manhã seguinte, o choro da mãe encontrou passarinhos na janela. Dois, três, muitos.

Olhavam pela janela. De fora pra dentro. Vontade de voltar?

 

Direto na têmpora: Red eyes – The War On Drugs

cotidiano, opinião, Sem categoria

Barulho

Barulho o pastelzinho

 

Eles ficam roucos de tanto falar, eu fico oco de tanto ouvir.

Tanta opinião, tanto “não” definitivo sem motivo, tanto “sim” tão resoluto e sem pensar, tanta certeza, tanta certeza, meu Deus, pra quê tanta certeza?

Tantas vozes que viram barulho.  O exercício de não racionalizar, de não ouvir, de não debater, de não perguntar, de não convencer se dissolve em um maremoto “cheio de fúria e som, significando nada”.

E então eu vejo que o ruído em excesso deixou minha pena muda. A tinta secou dentro de mim. E as palavras saem secas, apagadas, sem vida.

Tenho cada vez menos a dizer. Sei cada vez menos como dizer.

 

Direto na têmpora: Hang it up – The Ting Tings

cotidiano, literatura

Olha o curau!

milho verde curau pastelzinho

Quando eu trabalhava na Tom, tinha uma Brasília que vendia pamonha, bolo de milho, curau, essas coisas e parava na rua do lado da agência.

Avisava com estardalhaço sua chegada através do sistema de som ultrapassado e eu logo descia para comprar. Enquanto estava lá, jogada conversa fora com os guardadores de carro e com os pamonheiros e logo voltava pra agência.

Eram 15 minutos toda semana durante um bom tempo. Um ritual, pode-se dizer.

Até que um dia, eu estava em uma reunião quando ouvi impotente o chamado rouco das delícias de milho. Dei de ombros e me resignei, pois sempre há a semana seguinte, o curau seguinte, o bolo seguinte.

Voltei a me concentrar na reunião quando ouvi gritos vindo da rua. Eram os guardadores de carro que me convocavam gentilmente para meu compromisso semanal.

– Ô, Maurilo! A pamonha chegou! Desce!

Abaixei a cabeça, mas os gritos continuavam.

– Eles vão embora, Maurilo. Vem logo!

Enquanto me afundava na cadeira e sentia o olhar curioso dos clientes e furioso dos colegas, ainda ouvi os últimos berros:

– Vai perder o curau! Aí, ó, eles tão indo embora. Burrão!

E assim segui eu, o burrão, sofrendo duplamente: pela perda do curau e pela humilhação na reunião

 

Direto na têmpora: Only time will tell – Asia